segunda-feira, 4 de maio de 2009



Eu poderia escrever aqui um post raivoso, denunciando o despautério que é uma de nossas cada vez mais numerosas e cada vez mais fugazes celebridades-instantâneas ser convertida, da noite para o dia, por um programa de TV abominável em conselheira literária. Eu poderia apontar o quanto somos tolos ao seguir indicações de quem quer que seja, sem fazer qualquer questionamento, sem levar em consideração nosso próprio conhecimento ou gosto, blá-blá-blá. Mas estou num dia bom e prefiro escolher o tempero Pollyanna para o meu miojo. Prometo ser equilibrado para falar sobre um fenômeno pra lá de interessante que pode ter passado totalmente despercebido pela maioria das pessoas. Sim, pessoal, quebrando uma das regras de ouro deste blog, vou falar de Big Brother Brasil.
Postulante ao milionário prêmio do programa, a catarinense Ana Carolina Madeira foi responsável por um dos fenômenos literários mais inesperados dos últimos tempos. Quem trabalha em livrarias ou bibliotecas sentiu na pele os abalos sísmicos causados por essa moça. Durante algumas semanas, levas de pessoas buscaram — algumas à beira do desespero — um certo livro chamado “Uma paixão francesa”. Tudo porque Ana Carolina o relacionou em seu perfil do BBB na internet, o levou para dentro da casa e passou a falar enfaticamente de suas qualidades e de como teria sido o melhor livro a ter lido em todos os seus 24 anos de vida.
Você desconfia da extensão da influência de Ana Carolina? Pois então, experimente buscar no Google o título do livro. Visite os mais diversos fóruns e perceba o quanto o adormecido desejo de leitura desta nação foi despertado — aliás, despertado não, chutado para fora da cama, seria mais apropriado dizer. Como num virar de página, tornou-se obrigação sorver o verdadeiro tesouro literário que esta até então inaudita autora Diane du Pont teria a nos oferecer. Que verdades ocultas seu texto desnudaria? A que profundidade da alma humana nos levaria a escritora?
Até onde se pode apurar, não há uma edição corrente do livro no mercado brasileiro. O exemplar que Ana Carolina levou ao BBB deve constituir, pois, uma raridade; um tesouro a ser guardado a sete-chaves; e as chaves, a serem arremessadas para o fundo do Rio Tietê (Ooops! Será que é tão difícil honrar a promessa que fiz lá atrás?). Contudo, conseguimos localizar na internet rastros de uma
edição americana de 1977. A capa promete “um voluptuoso romance de arriscados prazeres”, dando a entender que seja uma daquelas histórias bem condimentadas (açucaradas a ponto de fazer mal a diabéticos ou de uma ardência de dar inveja a quituteiras baianas) vendidas às pencas em qualquer esquina e que há décadas fazem um silencioso sucesso entre certa parcela do público leitor brasileiro. No entanto, há quem jure de pés juntos que se trate de uma história seriíssima, que nos apresenta um comovente romance vivido no convulsivo cenário da Revolução Francesa.
Pouco importa. O que importa mesmo — a verdade suprema que nos é esfregada na cara — é que quando a Rede Globo (ou qualquer outra emissora de TV, mas sobretudo a Globo) quiser transformar o Brasil num país de leitores, ela atingirá a façanha em 2 ou 3 capítulos de novela. Vêm-me à mente alguns flashes de um Tony Ramos dono de livraria no Rio de Janeiro, de uma Mariana Ximenes lendo no colo da avó… Mas são ainda ensaios tímidos.
Pensando em tudo isso, vemos como a tese que alguns autores (entre eles, Henry Jenkins, de quem já
falamos brevemente por aqui) defendem de que os meios de comunicação e as formas de produzir e desfrutar de informação e conhecimento cada vez mais se confundem está soberba e inapelavelmente correta. Em alguns casos, felizmente; em outros, nem tanto.
Escrito por Ronoc

Eu também procurei por este livro para comprar e não encontrei em nenhum lugar. O máximo que encontrei foram edições usadas e em inglês. Realmente, acho que a Ana tem uma raridade nas mãos. Que destino terá esse livro hein?